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Número: 298
Data: 30/08/2017
Título: O QUE DIRÃO DE NÓS BRASILEIROS?

 --- Na frase “nós professores temos um papel a cumprir na sociedade”, talvez por influência da oralidade, tende-se a escrever o aposto sem vírgula, e mesmo essas vírgulas [nós, professores, temos] tendem a deixar a frase truncada ou até ambígua: professores – aposto ou vocativo? É aceitável a ausência das vírgulas? João Reguffe, Rio Grande/RS

Sim, é aceitável e correta.

É sobejamente conhecida uma frase de Manuel Bandeira que tem servido para ilustrar a silepse de pessoa (concordância ideológica ou pelo sentido): “O que me parece inexplicável é que os brasileiros persistamos em comer sem quase nenhum deleite essa coisinha verde e mole que se derrete na boca sem deixar vontade de repetir a dose”.   Nela, o sujeito da oração grifada – os brasileiros – corresponde a uma 3ª pessoa do plural “mas o verbo foi para a 1ª pessoa do plural em virtude da presença mental do pronome eu, que leva o autor a incluir-se entre aqueles” (KURY, 1989, p. 179).

A concordância nesses casos se faz com a ideia nós. São “construções onde se pode subentender pronome pessoal: (nós) os brasileiros somos” (LUFT, Mundo das Palavras s/d, n. 2.999).

Talvez pelo fato de esse tipo de frase se encontrar geralmente em textos literários ou discursos formais, acabamos adotando uma variação mais espontânea e adequada à nossa linguagem cotidiana, com a explicitação do pronome nós. Em vez de “os brasileiros somos um povo alegre”, estamos dizendo “nós (os) brasileiros somos um povo alegre”. Na escrita se dispensam as vírgulas, já que o sintagma nominal depois do pronome configura um aposto especificativo.

Outros exemplos: 

Nós professores temos um importante papel a cumprir.

 Eu me pergunto se nós da classe média seremos penalizados novamente.

Nós abaixo assinadas requeremos paridade salarial com os homens. 

Se nós latino-americanos não temos a tecnologia que os soviéticos tinham há 40 anos, é sinal de que estamos muito mal.

 

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