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Número: 297
Data: 23/08/2017
Título: À ÉPOCA, VIM A SABER QUE BRIGARAM ENTRE SI

 Em face do assunto abordado há duas semanas, perguntaram-me se estavam bem corretos dois dos exemplos apresentados: Preferiu sentar-se no sofá, e Sentamos à mesa principal. Sim, pode-se usar tanto a preposição “a” quanto “em” com o verbo sentar(-se). Nós brasileiros ora falamos sentar na poltrona, num banco, no sofá, na mesa, ora sentar à poltrona, a um banco, ao sofá, à mesa. 

 

Da mesma forma, pode-se dizer bater na porta e bater à porta, lavar a roupa na mão e lavar a roupa à mão. O fato é que o uso da preposição em é mais comum na fala, por ser mais audível do que à (cujo som se confunde com e com a artigo ou preposição), e  a crase sugere uma escrita mais elegante e erudita. 
 
Também nas expressões de tempo pode-se fazer a substituição do em pelo a (à/ao):
 
Não respondi ao telegrama pois naquela/ àquela hora o correio já havia fechado. 
 
Naquela/ Àquela altura dos acontecimentos, ninguém se lembrou do cachorro.
 
O forno de microondas custava, na/ à época, uns oito salários mínimos.
 
Na/ À oportunidade, envio-lhe meus cumprimentos.
 
No/ Ao ensejo, reiteramos nossas cordiais saudações.
 
--- Na frase abaixo é necessário, facultativo ou incorreto colocar a preposição depois do verbo vir? “Que venham a manchar a imagem da arbitragem.” Bianca Casagrande, Porto Alegre/RS
 
Não é indiferente o uso da preposição nesse caso: há mudança de significado. Na combinação de vir com outro verbo, distingue-se vir+infinitivo de vir+a+infinitivo.
 
1) No primeiro caso, tem-se a noção de chegar ou de se locomover com alguma finalidade. A preposição para está implícita:
 
Vim [para] saber o que ocorreu.
 
A senadora veio participar da campanha eleitoral.
 
Espero que venhas trazer o dinheiro ainda hoje.
 
Os três bolivianos não vieram cursar Medicina, mas sim Enfermagem.
 
 
2) O uso da preposição a entre vir e o infinitivo tira da locução verbal a noção de finalidade e empresta-lhe o sentido de “acontecer, ocorrer, suceder”, de “chegar” mas não com o  sentido físico:
 
Vim a saber da tragédia pelos jornais.  [aconteceu de eu saber]
 
A senadora veio a participar da campanha eleitoral. [chegou a participar]
 
Espero que venhas a encontrar o que queres. [que acabes encontrando]
 
Depois de um tempo, veio a amá-lo como a um filho. 
 
--- Qual a diferença entre “brigaram entre eles” e “brigaram entre si”? Chico Damasceno, Palmas/TO
 
Não há diferença semântica, mas apenas de nível de linguagem. Pela norma culta ou padrão, devem ser usados os pronomes reflexivos si e consigo – e não os pronomes retos – quando o objeto verbal e o sujeito são a mesma pessoa:
 
Pedro só pensa em si
 
A Fulana só gosta de falar de si mesma.
 
Dalma e Telma se afastaram da turma e discutiram o assunto entre si
 
O carpinteiro veio mas não trouxe consigo o material de carpintaria.
 
 
No entanto, no Brasil é muito comum, até em textos algo formais, o esquecimento dos pronomes reflexivos em favor dos pronomes retos nessas mesmas situações. Na linguagem falada, chega a ser constrangedor o uso de si e consigo. O que se ouve é: 
 
Pedro só pensa nele.
 
A Fulana só gosta de falar dela mesma.
 
Dalma e Telma se afastaram da turma e discutiram o assunto entre elas
 
O carpinteiro veio mas não trouxe com ele o material de carpintaria.

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