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Número: 285
Data: 31/05/2017
Título: DEMAIS, DE MENOS, DE MAIS

 --- Qual a grafia correta: demais ou de mais? Existe diferença de uso entre um e outro? 

 

Perguntas como essas estão na lista de espera há mais de ano. Como estamos para encerrar a coluna Não Tropece na Língua no número 300, achamos por bem atacar o assunto sem mais perda de tempo.
 
Não há dúvida em relação a uma situação: escreve-se numa só palavra quando demais funciona como advérbio ou pronome indefinido. Neste último caso, é precedido de artigo no plural e tem o valor de os restantes, os outros: “Fale com os demais (companheiros) antes de tomar a decisão”.
 
Como advérbio de intensidade, significando excessivamente, demasiadamente, em demasia, o termo qualifica um adjetivo ou um verbo.
 
Exemplos com adjetivo:
 
Não vá embora, é cedo demais!
 
Não posso passear com Ivan pela Beira-Mar pois seu passo é rápido demais.
 
Aos mais afoitos entre os partidários de Lula, que considerariam sua postura conciliadora demais, o problema na Venezuela serve de alerta.
 
Com verbo:
 
Não estudes demais; tua mãe se preocupa demais com isso.
 
Que cara legal, ele é demais
 
Que tem demais nisso?
 
Advérbio não modifica substantivo, função que cabe ao adjetivo, certo? Por isso se diz que, ao acompanhar um substantivo, demais deve ser escrito de mais, o que configuraria uma locução adjetiva, tendo como sinônimos demasiado, excessivo, de resto, de sobra, a mais e como antônimo de menos:
 
Miséria galopante: gente de mais, trabalho de menos.
 
Dinheiro de mais estraga. 
 
Como há candidatos de mais e empregos de menos, o processo de seleção é longo.
 
Vírgulas de mais atrapalham.
 
Já se eu disser “não use vírgulas demais”, posso entender que se trata de um advérbio que está se referindo ao verbo usar: “não use demasiadamente as vírgulas”, frase que também se diria deste modo: “não use demasiado as vírgulas” (ouvi muito em Portugal “gosto demasiado”). 
 
Há frases assim, em que “demais“ aparece ao lado de um substantivo mas na realidade está se reportando ao verbo – explícito ou implícito – anterior ao substantivo. O advérbio não precisa estar necessariamente ao lado da palavra que ele modifica. É o caso de “como o Vasco estava gastando dinheiro demais, tinha de acabar nisso”. 
 
Para a maioria das pessoas fica difícil, diante de tanta sutileza gramatical, saber quando se separam os dois termos na escrita, até porque em ambos a pronúncia e o significado são iguais. Melhor seria simplificar (como já se fez com “porventura” – mas não com “por acaso” – para dar só um exemplo) e escrever sempre junto. Eu mesma já coloquei na 1ª edição do livro Só Vírgulas: método fácil em vinte lições: “Vírgulas demais atravancam o texto, vírgulas de menos podem levar a uma leitura incorreta”. E estou em boa companhia:
 
de Clóvis Rossi, na Folha de S. Paulo: Custos demais, renda de menos
 
suplemento Vida Digital (Veja n. 52): Informação demais atrapalha.
 
O corretor ortográfico do Word nem se abala!  Mas há leitores que se amofinam com isso. 
 
Preciso observar ainda que nem sempre de menos tem por oposto a grafia de mais, pois a locução de menos modifica tanto o substantivo [gente de menos] quanto o verbo [saber de menos], ao passo que junto ao verbo só podemos escrever demais, como já visto. Assim, estão corretas estas frases:
 
Fuja de médicos que falam demais e ouvem de menos ou minimizam as queixas dos pacientes.
 
O governo tem agido de menos e divagado demais.
 
Uns ganham demais, outros de menos. [uns ganham demasiadamente]
 
Uns têm de mais, outros de menos. [uns têm (coisas) de mais, sobrando]
 
 
Vale relembrar, por fim, que a grafia das palavras segue uma convenção, a qual em alguns casos se altera no tempo e no espaço geográfico de uso. É a língua em constante movimento.

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