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Número: 127
Data: 01/04/2020
Título: CAPRICHOS DA LÍNGUA: EMBAIXO, MUÇARELA, GRAVIDEZ

O leitor Sylvio F. Bertoli sugere um assunto: a diferença de embaixo e em baixo. Aproveitaremos para ver também a locução adverbial em cima.


Há um par de advérbios que chama a atenção pela incoerência da grafia: embaixo e em cima, um junto e um separado. Mas é melhor observar a lista completa:


1) abaixo (rio abaixo)              2) acima (rio acima)
    debaixo do tapete                    de cima do banco
    embaixo da mesa                   em cima do balcão
    por baixo dos panos              por cima dos fatos


No caso 1, escreve-se três vezes junto e uma vez separado, até pelo fato de que a preposição por tem mais evidência que as outras (“porbaixo” ficaria deveras estranho!); no caso 2, três vezes separado e uma vez junto! Fazer o quê? É imposição oficial. Mas há um caso em que se escreve “baixo” separado da preposição a ou de: é na relação entre de ... a,   formando locução adverbial, como nos seguintes exemplos:


A parede rachou de alto a baixo.

Pintou a escada de baixo a cima.


Já para usar a sequência em baixo, ou apenas a palavra baixo, é preciso que ela esteja modificando um substantivo – aí, baixo tem a função de adjetivo, sendo portanto variável:


Vive em baixo astral.

Trafega em baixa velocidade.

Falou em tom baixo.


QUEIJO MOZZARELLA


--- Há 15 anos trabalhando como revisor, principalmente em agências de publicidade, quando ocorre num trabalho de um cliente querer grafar “mussarela” como o nome daquele queijo muito utilizado em pizzas, tenho conseguido convencê-los a aceitar a forma mozarela, que consta no Michaelis (ao lado de muçarela, infelizmente) como aportuguesamento do italiano mozzarella. Isso apesar da turma do “mas eu sempre vi escrito assim”. Qual a sua opinião a respeito? Celso Mattos, Mogi das Cruzes/SP


Entendo que se deve adotar o termo italiano original – mozzarella – ou uma das duas formas dicionarizadas (Michaelis, Aurélio, Houaiss, PVOLP): mozarela, aportuguesamento da grafia italiana, ou muçarela, grafia baseada na pronúncia brasileira, mas que ainda parece estranha, por ser pouco usada. Trocar o cê cedilha por dois esses (mussarela)? Até ficaria simpático, mas deixaria muito confuso quem recorresse ao dicionário em caso de dúvida, pois não encontraria ali essa grafia. Na verdade é uma questão de hábito. Já nos acostumamos, por exemplo, com o cê cedilha em palavras como maça (arma de ferro), maçaneta, maçante, maçarico, maçom, miçanga, moçárabe, moçoró, muçulmano, muçum.


GRAVIDEZ TEM PLURAL?


A primeira vez que me perguntaram se a palavra gravidez tinha plural eu disse que não, até porque dois médicos a quem dirigi a mesma pergunta responderam que não há, e eu mesma não encontrei o plural nos dicionários e nos livros de medicina de que disponho. Além do mais, “gravidezes” soa estranho, o que justifica o seu desuso ou raridade, embora em artigos na internet seja bem frequente. A explicação para tal flexão é que as palavras terminadas em Z ou EZ formam o plural com o acréscimo de “es”, caso de avestruz – avestruzes, vez – vezes. Mas devo contrapor que nem sempre é assim: o plural de tez (cútis) é tez, não *tezes, e tampouco o adjetivo indez se usa no plural: os ovos indez. Por que então gravidez teria obrigatoriamente um plural?


Sendo assim, no caso de mais de uma, é melhor e mais elegante falar em gestação:


Maria teve sete gestações em 10 anos.


Ainda é possível reestruturar a frase:


Maria teve gravidez tubária duas vezes.

Ela teve gravidez de risco nos quatro filhos. [em vez de quatro gravidezes]


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