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Número: 103
Data: 16/10/2019
Título: DO CARNAVAL NO SAMBA DO CONCURSO DOIDO

Sendo carnaval*, acho oportuno abordar um aspecto de vestibulares e concursos para preenchimento de cargos públicos. Trata-se da prova de português, também uma folia, mas sem confetes e serpentinas. Ao passar os olhos sobre os testes de alguns concursos e “simulados”, concluo que ainda há pouco a comemorar, pois alguns deles põem o candidato contra a parede com frases tão fora da realidade quanto o título desta coluna.


É louvável que a primeira eliminatória dos concursos públicos inclua questões de português. Seu mérito é justamente este: levar o pessoal a “correr atrás do prejuízo”. E haja apostilas e matrículas em cursos preparatórios!


Alguns concursos partem direto para a redação, ótimo (aí o problema pode ser a correção delas, mas nada é perfeito...). Outros começam com provas objetivas, que nem sempre avaliam o conhecimento do candidato; isso depende muito da maneira como se fazem as questões e que tipo de questão é feita. Pode se beneficiar mais aquele que conhece os macetes de marcar cruzinhas, eliminar isso e aquilo, fazer somas, do que o candidato que redige bem, tem bom vocabulário, mas desconhece a “psicologia” da prova objetiva ou a tendência (para não dizer o humor) de quem a elaborou.


Espera-se de um procurador ou juiz que conheça a língua nativa de modo a redigir com coerência, clareza e correção seus pareceres, sentenças, petições, acórdãos. E é importantíssimo que ele saiba consultar dicionários e livros para solucionar dúvidas. Mas na hora do “vamos ver”, esse pobre advogado tem que saber, sob pena de reprovação:


- que o plural de puxa-puxa, pele-vermelha e puro-sangue é puxa(s)-puxas (puxa vida!), peles-vermelhas e puros-sangues;

- que são todas frases “ERRADAS”: Estados Unidos atacam Afeganistão. Fiquem alertas! João namora com Maria. Não me simpatizei com ela. Aqui se come, se bebe e se é feliz. Sua atitude implicará em demissão (1). Deu nove horas no relógio da praça (2). Esqueci de seu nome;

- que na língua nativa as frases boas (“assinale a frase CORRETA”) são escritas assim: Fi-las com a dedicação de um monge. Nunca me esqueceram seus olhares marotos (3). Meus projetos, nunca lhos mostrarei. A elas, não lho entregarei (4). O senador favorável à nossa causa assiste em Brasília. Entrada é proibido (5). Dá-lo-ia, mandá-la-á...


Comentários:
(1) Temos que parar de ser implicantes com “implicar em”; felizmente bons vestibulares já não estão insistindo na regência deste verbo.


(2) Quanta história! Já em 1654, D. Francisco Manuel de Melo escreveu em “Relógios Falantes”: “Não dera ainda nove horas, que é taxa de todo cativeiro do matrimônio”.


(3) Que frase marota: os olhares não me esqueceram ou eu é que não esqueço tais olhares?? Com essa estrutura frasal, fiquei confusa! E ainda descubro que o filme “Esqueceram de mim” deveria se chamar “Esqueceram-se de mim”. Ora, se Érico Verissimo, Mário de Andrade, Jorge Amado, José Lins do Rego e Clarice Lispector usaram “esquecer de” (sem o pronome oblíquo), por que nós, simples mortais, não temos esse direito?


(4) Afinal, o concurso é para trabalhar no Brasil ou em Portugal? Pois lá é que se usam os pronomes mo, ma, lho, lha...


(5) Qualquer pessoa normal que quiser afixar placa de interdição saberá escrever: PROIBIDO ENTRAR ou Entrada proibida ou É PROIBIDA A ENTRADA ou até mesmo Proibido entrada, mas nunca usará a opção sugerida no teste.


Gosto de gramática, prezo sua utilidade e defendo seu ensino. Porém há um evidente exagero nisso tudo. Não se pode ficar cobrando regras quando são inócuas ou polêmicas. Essa coisinha de exceção e de “pegadinha” só faz afastar as pessoas do estudo de português, criando nelas ojeriza ao idioma.


Até pode ser interessante saber que “informar e inflamável apresentam prefixos de mesmo significado” (in, “para dentro”) e que “amarelar, infelizmente e apedrejar não são formadas pelo mesmo processo”, pois na 1ª temos derivação sufixal, na 2ª derivação prefixal e sufixal e na 3ª uma parassíntese, mas se o candidato não tiver memória para decorar tudo isso, danou-se!


* Embora esse artigo tenha sido escrito originalmente em 2002 – e de lá para cá felizmente muita coisa melhorou –, ele permanece publicado pois ainda há algumas instituições que cometem alguns dos exageros aqui criticados.


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